LATO SENSU
expressão em latim que significa "em sentido amplo".

FÉ E POLÍTICA: CUIDAR DA VIDA


Selvino Heck

 

 

            Reunida em Ipatinga, MG, a Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política escolheu o tema do 7º Encontro Nacional, a realizar-se em Ipatinga, no Vale do Aço, nos dias 28 e 29 de novembro de 2009: CUIDAR DA VIDA: ESPIRITUALIDADE, ECOLOGIA E ECONOMIA.
            Um conjunto de razões e argumentos sustentou a escolha do tema. A coordenação do Fé e Política do Rio de Janeiro, que não pôde se fazer presente, encaminhou uma primeira sugestão - Ecologia: cuidar da casa, defender a vida -, argumentando: “Economia e ecologia têm a mesma raiz grega. Ecologia é cuidar da casa. Economia é administrar a casa. A casa comum está sendo devastada, poluída, exaurida. Refazer a ‘casa’ é uma questão política e um ‘ministério’ da fé. Minas é um Estado com rica biodiversidade, tem diversos biomas e muita exploração ambiental.”
            As contribuições de todos os presentes, cerca de 50 pessoas, das comunidades de Ipatinga e cidades vizinhas e dos membros  da Coordenação nacional presentes, ampliaram a reflexão.
            Foi lembrado que o próximo Fórum Social Mundial será em Belém, Pará, no final de janeiro de 2009, no coração da Amazônia, quando o meio ambiente, os cuidados com a natureza, a qualidade de vida dos povos e o futuro da humanidade estarão no centro dos debates.
            Mais ainda. Há uma crise econômica atravessando o mundo, com graves conseqüências: aumento da fome, da pobreza, da miséria e da exclusão social; concentração de renda; crise na produção e na distribuição dos alimentos. Junto com a crise econômica, escancara-se também uma crise de projetos e de valores.
            Por outro lado, há também esperança, com o renascimento de movimentos sociais e o surgimento de novas formas de luta, com a economia solidária e os grupos de geração de trabalho e renda, com os governos populares na América do Sul e  Latina, com a eleição de Obama nos EUA,  tudo provocando e exigindo a reflexão sobre projetos alternativos de um ‘outro mundo possível’. Em 2009, faltará um ano para as eleições presidenciais no Brasil, onde deverá ser discutido que Brasil queremos, com qual projeto de desenvolvimento.
            Por tudo isso, escolheu-se “cuidar da vida”, em três dimensões: espiritualidade, ecologia e economia.
            Leonardo Boff escreveu sobre as várias dimensões do saber cuidar, em SABER CUIDAR – Ética do humano – Compaixão pela Terra (Ed. Vozes, 2003, 9ª edição).
            Cuidado com o nosso único planeta:  “Cuidado todo especial merece nosso planeta Terra. Temos unicamente ele para viver e morar. É um sistema de sistemas e superorganismo de complexo equilíbrio, urdido ao longo de milhões e milhões de anos. Por causa do assalto predador do processo industrialista dos últimos séculos, esse equilíbrio está prestes a romper-se em cadeia. O cuidado essencial é a ética de um planeta sustentável.”
            Cuidado com o próprio nicho ecológico: “O cuidado com a Terra representa o global. O cuidado com o próprio nicho ecológico representa o local. O ser humano tem os pés no chão (local) e a cabeça aberta para o infinito (global). O coração une chão e infinito, abismo e estrelas, local e  global. Esse cuidado com o nicho ecológico só será efetivo se houver um processo coletivo de educação, em que a maioria participe, tenha acesso a informações e faça troca de saberes.”
Cuidado com uma   sociedade sustentável: “Atualmente quase todas as sociedades estão enfermas. Sustentável é a sociedade ou o planeta que produz o suficiente para si e para os seres dos ecossistemas onde ela se situa; que toma da natureza somente o que ela pode repor; que mostra um sentido de solidariedade generacional, ao preservar para as sociedades futuras os recursos naturais de que elas precisarão.”
Cuidado com o outro, ‘animus e anima’: “Cuidar do outro é zelar para que esta dialogação, esta ação de diálogo eu-tu seja libertadora, sinergética e construtora de aliança perene de paz e de amorização. O outro se dá sempre sob forma de homem e de mulher. São diferentes mas se encontram no mesmo chão comum da humanidade.”
Cuidado com os pobres,  oprimidos e excluídos: “Nada agride mais o modo-de-ser-cuidado do que a crueldade para com os próprios semelhantes. A libertação dos oprimidos deverá provir deles próprios, na medida em que se conscientizam da injustiça de sua situação, se organizam entre si e começam com práticas que visam transformar estruturalmente as relações sociais iníquas. O compromisso dos oprimidos e de seus aliados por um novo tipo de sociedade, na qual se supera a exploração do ser humano e a espoliação da Terra, revela  a força política da dimensão-cuidado.”
Cuidado com nosso corpo na saúde e na doença: “Corpo é um ecossistema vivo que se articula com outros sistemas mais abrangentes. Cuidar de nosso corpo implica cuidar da vida que o anima, cuidar do conjunto das relações com a realidade circundante, relações essas que passam pela higiene, pela alimentação, pelo ar que respiramos, pela forma que nos vestimos, pela maneira como organizamos nossa casa e nos situamos dentro de um determinado espaço ecológico.”
Cuidado com a cura integral do ser humano: “A cura acontece quando se cria um novo equilíbrio humano. Cuidar de nossa saúde significa manter nossa visão integral, buscando um equilíbrio sempre por construir entre o corpo, a mente e o espírito e convocar o médico (corpo), o terapeuta (mente) e o sacerdote (o espírito) para trabalharem juntos visando a totalidade do ser humano.”
Cuidado com a nossa alma, os anjos e os demônios interiores: “Eis um desafio ingente: o de cuidar de nossa alma inteira. Cuidar dos sentimentos, dos sonhos, dos desejos, das paixões contraditórias, do imaginário, das visões e utopias que guardamos escondidas dentro do coração.”
Cuidado com o nosso espírito, os grandes sonhos e Deus: “O ser humano chama essa suprema Realidade com mil nomes ou simplesmente dá-lhe o nome de Deus. O ser humano pode cultivar o espaço do Divino, abrir-se ao diálogo com Deus, confiar a ele o destino da vida e encontrar nele o sentido da morte. Surge então a espiritualidade que dá origem às religiões. Elas expressam o encontro com Deus nos códigos das diferentes culturas. Cuidar do espírito significa cuidar dos valores que dão rumo à nossa vida e das significações que geram esperança para além de nossa morte.”
Cuidado com a grande travessia, a morte: “Na morte se dá, então, o verdadeiro nascimento do ser humano. Nessa perspectiva não vivemos para morrer. Morremos para ressuscitar, para viver mais e melhor. A morte significa a metamorfose para esse novo modo de ser em plenitude. Cuidar de nossa grande travessia é internalizar uma compreensão esperançosa da morte.”

A reunião em Ipatinga, na paróquia Cristo Libertador, Bairro Canaã, cujo vigário é o Pe. Francisco Cezar,  foi rica, cheia de alegria e esperança, em meio às vitórias populares nas eleições municipais no Vale do Aço. Estiveram presentes lideranças de Ipatinga, de Coronel Fabriciano, de Timóteo, Mesquita, Periquito, de Santana do Paraíso, da diocese de Mariana, o deputado estadual Padre João e assessores,  pastores e representantes da Igreja Batista e de outras igrejas, membros da Coordenação estadual do Movimento Fé e Política mineiro, vereadores e gestores municipais eleitos ou seus representantes. O bispo D. Odilon Guimarães e o bispo emérito D. Lélis Lara, da diocese de Itabira-Coronel Fabriciano, foram representados pelo Pe. Daniel, da Comissão diocesana de Justiça e Paz.
Foram definidos quatro eixos, ao redor dos quais acontecerão as oficinas temáticas, no sábado 28 de novembro à tarde: cuidar da vida e do meio ambiente; cuidar da vida e da fé e política; cuidar da vida e da cidade – campo e urbano; cuidar da vida e dos direitos humanos. Sábado pela manhã haverá um painel-debate, com convidados, com ênfase na economia e ecologia, e domingo 29, de manhã, outro painel-debate, com ênfase na espiritualidade.
Agora, começa a preparação próxima. Foi escolhido o local dos eventos principais, o Centro Esportivo Cultural 7 de Outubro, cujo nome é uma homenagem aos operários da Usiminas, que se localiza em Ipatinga, massacrados nos anos sessenta por ordem da empresa. Em fins de 1963, a Usiminas, então estatal, tinha 15 mil operários, 8 mil diretos e os demais de empreiteiras. Algumas mantinham os trabalhadores em regime de semi-escravidão, com salário menor, morando nas cidades próximas, sem direito de se filiar ao Sindicato dos Metalúrgicos. Em outubro de 1963, estourou uma revolta e os trabalhadores entraram em greve. A repressão que se seguiu, a mando do então do então governador Magalhães Pinto, um dos líderes civis do golpe militar de abril de 1964, resultou, segundo dados oficiais, em 8 mortos e muitos feridos em 7 de outubro de 1963. Mas é voz corrente que houve mais de 30 mortos e mais de 3 mil feridos. 
Por todas essas razões e outras tantas, a síntese construída envolve as palavras espiritualidade, ecologia, economia e o saber cuidar. Saber cuidar a espiritualidade, saber cuidar a ecologia, saber cuidar a economia. Como os tempos são de globalização, especialmente a financeira, é também tempo e urge, pelo lado dos lutadores sociais e dos que  sonham com o Reino já a partir deste mundo,  construir um projeto de sociedade e de desenvolvimento alternativos.
Ipatinga, em tupi-guarani, significa ‘pouso da água limpa’. As terras das minas gerais significarão, de hoje a 28/29 de novembro de 2009, a sede da água limpa e da beleza, da cidadania e dos direitos humanos, do sonho e da utopia, que vão saciar todos e todas no córrego da solidariedade, da paz e da justiça.

Selvino Heck é Assessor Especial do Presidente da República
Da Coordenação nacional do Movimento Fé e Política


Secretaria do Movimento Nacional
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