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LATO SENSU
expressão
em latim que significa "em sentido amplo".
O POVO, A ÁGUA E O RIO
Selvino Heck
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Nada como atravessar o rio Amazonas de barco à noite cantando Maluco Beleza do Raul à luz das estrelas e da lua. Olha-se para o céu, todo iluminado, olham-se as águas imensas que parecem não ter fim, as luzes da cidade lá longe, dá uma felicidade misturada com saudade de coisas que não se sabe explicar. Pude fazer essa experiência inesquecível indo da Vila Amazônia a Parintins, durante o Encontro da Rede TALHER de Educação Cidadã (RECID) do Amazonas.
Era véspera da Festa do Boi, tradicionalíssima, com raízes nordestinas do início do século XIX, e cada vez mais conhecida no Brasil e no mundo. Milhares de pessoas saem do próprio Estado do Amazonas, de estados vizinhos, pelos rios e pelo ar. Parintins é uma ilha. Nenhuma ponte a liga ao continente ou a terra firme. Tudo, absolutamente tudo, tijolos, comida, carros, móveis, roupas, vem por barco ou avião.
Há dois Bois. O Garantido, vermelho, dizem que é dos pobres. O Caprichoso, azul, dos ricos. Algo como as escolas de samba do resto do Brasil, apresentam-se por três noites no Bubódromo. Os ensaios são feitos nos Currais de cada Boi.
A cidade de Parintins é literal e fisicamente dividida ao meio, a catedral fica demarcando os limites e o horizonte. De um lado da catedral, tudo é vermelho: placas, avisos, as ruas engalanadas à espera dos visitantes. Os orelhões, tradicionalmente azuis, tiverem que trocar de cor, porque eram depredados pelos moradores torcedores do Garantido. Do lado do Caprichoso, tudo azul. Até a Coca-Cola teve que trocar a cor de sua marca. (Dizem eles que é o único lugar do mundo onde isso acontece.)
A Vila Amazônia, onde se realizou o Encontro da RECID, fica em terra firme, uns 20 minutos de barco de Parintins pelo rio Amazonas. Tem uma história singular, contada pelo professor Camilo da Universidade Estadual do Amazonas. De 1930 a 1937, 248 japoneses vieram, a convite e de forma planejada, para o Amazonas. Escolheram a Vila Amazônia para morar. Construíram um hospital, um centro de pesquisa e meteorologia, instalaram o Instituto Amazônia, tinham até esgoto nas casas, feito com drenagem da água da chuva. Começaram a produção de juta, tornando-se grandes produtores. Com a Segunda Guerra, foram demonizados como espiões ou estrangeiros, presos, perseguidos, perdendo todos os seus bens para as elites de Manaus. Seu patrimônio foi considerado espólio de guerra Mas deixaram um legado de organização e produção naquelas terras então distantes.
Ao final do Encontro da RECID, cujo tema era “Tecendo os Fios da Educação e do Poder Popular às Margens do Rio Amazonas”, os 60 participantes escreveram Cartas Pedagógicas, a exemplo de Paulo Freire. Transcrevo partes da forma como eles escreveram.
“O Encontro foi rico de muitos pontos relevantes para o fortalecimento das ações que desenvolvemos nas bases como: momentos de mística coerente com nossa realidade; o tema a ser desenvolvido; as rodas de conversa onde refletimos os temas poder popular, democracia participativa, educação popular e sistematização; as trocas de experiência partilhadas pelos movimentos; a viagem, o percurso até a vila; a análise de conjuntura; contextualização histórica da Vila Amazônia; ousadia da equipe em realizar o encontro neste loca; noite cultural, os currais dos Bois.”
“Saindo de Manaus no dia 16 de junho de 2010, chegando à cidade de Parintins às 4h20m da madrugada, onde fomos recebidos pelo educador Valdemilson. Em seguida fomos tomar café e recolhimento da cidade, com o encontro para o almoço no Sindicato dos Trabalhadores Rurais, seguindo para a embarcação para passeio turístico ao redor da ilha Tupinambarana, chegando até a Vila Amazônia, a meia hora de Parintins. Seguimos até o local do Encontro na Igreja Nossa Senhora de Fátima e área missionária e em seguida o jantar e o descanso. Acordando dia 18, tomamos café e em seguida fomos para a abertura do encontro, começando com apresentações e mística, que refletia nossa chegada e nossos sentimentos, partilha de experiências de cada município, comunidades, movimentos. No dia seguinte, após mística que refletia a natureza, começaram as rodas de conversas onde se discutiu três temas em cada roda: poder popular, democracia participativa e educação popular e sistematização. O poder popular, que se encontra junto ao coletivo. Na democracia participativa, se discutiu que o povo tem direito de escolher. Em educação popular e sistematização foram passados slides de uma forma explícita e resumida. Esta é nossa carta, feita por todos nós participantes do grupo. Que tenhamos uma boa ousadia e otimismo para avançar nos nossos trabalhos.”
“Caríssimos/as educadores/as, através do encontro da Recid, onde tínhamos como objetivo principal nossos conhecimentos e experiências vividas em nossos movimentos, percebemos que nas rodas de conversa, discutidas com todos/as educadores/as, tivemos compreensão de que o poder popular depende do despertar que a educação popular nos traz, e a partir daí vivenciar a luta pela democracia onde todos/as tenham uma visão crítica. Compreendemos melhor a diferença entre a estrutura e a conjuntura. Isso nos ajuda no planejamento do trabalho de base, diante dos desafios, dificuldades e deficiências da nossa realidade amazônica enfrentada diariamente pelos educadores e educadoras. Ao conhecer a Vila Amazônia e o início de sua história, percebemos que isso também faz parte de nossa história, do qual tínhamos o conhecimento desse processo histórico e percebemos que não conhecemos a nossa verdadeira história.”
É o Brasil e sua riqueza de povo, sua diversidade e sua unidade, seus encantos, seu futuro e esperança. “Sonho que se sonha só é só um sonho. Sonho que se sonha junto torna-se realidade.” Viva o Brasil! Selvino Heck
Assessor Especial do Gabinete do Presidente da República