¡NUESTRA AMÉRICA ESTÁ EN CAMINO!

!Ñane América tee oñemongu ' ehína! (em guarani)


Selvino Heck

 
 

O menino índio, de não mais de cinco anos, percorria a praça em frente ao El Cabildo, centro de Assunção, Paraguai, com um enorme saco preto às costas, quase maior que ele,às oito da noite. Veio recolher a latinha de cerveja vazia da minha mão. Acompanhei-o com o olhar. Num canto da praça, outras seis ou sete crianças corriam e brincavam junto com alguns adultos. De vez em quando, saíam pela praça recolhendo o que os participantes do ato de abertura do IV Foro Social Américas jogavam fora.

No palanque, a maia e guatemalteca Rigoberta Menchú, Prêmio Nobel da Paz/1992, falava dos ancestrais que devem ser ouvidos, da quantidade de jovens presentes que participaram por três horas da caminhada de abertura do Foro, da importância de dar um novo sentido às três dimensões da vida, a econômica, a social e a espiritual.

O IV Foro Social das Américas, realizado em Assunção de 11 a 15 de agosto, foi cheio de esperança. O haitiano Camille Chalmers falou, na abertura do Encontro Hemisférico de Fé e Política, que há hoje, em nível mundial, momentos de grande dor e de esperança. Os momentos de dor têm a ver principalmente com o escândalo ético de haver uma pobreza crescente dentro dos países e entre países, com o crescimento dos que passam fome no mundo e, por outro, o luxo e a riqueza de alguns poucos. Dos 15 países mais desiguais, 10 estão na América Latina. É preciso lutar contra o escândalo ético.

A esperança, segundo Chalmers, existe pelo fato de a América Latina ser o único continente que critica o neoliberalismo e constrói processos alternativos. No continente latino-americano, os países que melhor resistiram e resistem à atual crise do sistema capitalista foram os que contam com projetos sociais e enfrentam o neoliberalismo. Todos estes processos que buscam superar o neoliberalismo merecem apoio e aprofundamento. Estão sendo criadas novas estruturas por exemplo na Bolívia. É importante a revolução cubana e saudar com entusiasmo os esforços continentais gigantes na relação Estado – sociedade. O despertar dos povos originários oferece ao mundo novas formas de vida e de produção. Por isso, a preocupação é estabelecer intercâmbios entre os movimentos sociais e as mudanças progressistas, superando a fragmentação dos movimentos sociais.

Três projetos sustentam os projetos de esperança, diz Camille Chalmers: a ALBA – Aliança Bolivariana para os Povos da nossa América –, com uma integração a serviço do ser humano, o Banco do Sul e a proposta do Sucre como moeda.

A presença indígena foi muito forte no IV Foro, em especial a boliviana. Em todas as oficinas, painéis, os indígenas bolivianos marcavam presença coletiva, falavam, davam opiniões fundamentadas, contavam sua experiência com orgulho. Segundo o aimara David Choquehuanca, Ministro de Relações Exteriores do governo de Evo Morales, tanto o capitalismo quanto o socialismo, este da forma como aconteceu, são inviáveis. O capitalismo porque só busca o acúmulo de riquezas e o socialismo porque só busca a satisfação e coloca no centro o homem. No painel “Bem Viver e Direitos da Mãe Terra”, David exortou os povos americanos a praticar uma nova via, ‘el vivir bien'. O importante é a natureza e o bem viver em harmonia com o meio ambiente. “Nós não buscamos viver melhor que os outros. Buscamos viver bem entre todos.” O Bem Viver exige recuperar a dignidade dos povos, a identidade das culturas, alimentar-se de forma sã, trabalhar e reproduzir, tudo sempre em equilíbrio com as pessoas, em equilíbrio com a natureza. “Devemos democratizar a democracia. Mais que justiça, é preciso equilíbrio. O objetivo não é competir, mas compartir.”

A uruguaia Lílian Celiberti, na mesa “Crise, Governabilidade, Modelo de Desenvolvimento e Alternativas: construindo Estratégias” contou um fato acontecido em viagem pela empresa Pluna. Um passageiro brasileiro, contrariado por atrasos no vôo, falou: “Nunca mais me tirem uma passagem numa empresa deste país de índios”. Mostrou todo seu preconceito, referindo-se a um país onde houve um verdadeiro genocídio indígena, daí os indígenas não mais serem representativos no Uruguai.

A Rede TALHER de educação Cidadã (RECID) promoveu oficina sobre a “Educação popular em Rede na Construção de um Projeto popular para o Brasil”, com participantes de vários países contando suas experiências de educação popular, as dificuldades de relação com os governos locais e os avanços na organização social. A RECID apresentou sua proposta de educação popular como política pública, em debate no governo Lula e com os movimentos sociais brasileiros.

O IV Foro Social das Américas, com mais de dez mil participantes, foi um grande painel do que está acontecendo na América e no mundo. O tom foi de esperança e de desafios ainda a serem enfrentados, em meio à reação dos setores conservadores que não querem que as mudanças em curso se aprofundem.

O menino índio recolhendo latas de cerveja e refrigerantes na praça é o retrato do quanto há ainda por caminhar. Mas sem dúvida, pela primeira vez na história, a América Latina está no caminho da justiça, da solidariedade, da igualdade e do bem viver.

OTRA AMÉRICA ES POSIBLE – AMBUE AMÉRICA IKATU JAJAPO

Assessor Especial do Gabinete do Presidente da República
Em cinco de agosto de dois mil e dez


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