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Predomina
ainda entre os cristãos a idéia de que a mística nada
tem a ver com a política. Seriam como dois elementos
químicos que se repelem. Basta observar como vivem uns
e outros: os místicos, trancados em suas estufas contemplativas,
alheios aos índices do mercado, absorvidos em seus exercícios
ascéticos, indiferentes às discussões políticas que
se travam em volta deles.
Os
políticos, consumidos por infindáveis reuniões, correndo
contra o relógio da história, mergulhados no redemoinho
de contatos, de análises e de decisões que saturam o
tempo e não abrem espaço sequer ao convívio familiar,
quanto mais à meditação e à oração!
É
verdade: uma certa concepção da mística é incompatível
com certo modo de fazer política. A Vida Religiosa está
imbuída deste conceito de que contemplativo é quem dá
as costas ao mundo para postar-se diante de Deus. Todavia,
não é bem no Evangelho que se encontram as raízes desse
modo de testemunhar o absoluto de Deus, mas sim em antigas
religiões pré-cristãs e nas escolas filosóficas gregas
e romanas, que proclamavam a dualidade entre alma e
corpo, natural e sobrenatural, sagrado e profano.
O
monaquismo, que nasce no século IV como afirmação da
fidelidade evangélica perante o desfibramento da emergente
Igreja constantiniana (leiam-se as cartas de São Jerônimo),
não teve alternativa histórica senão se nutrir na ideologia
em voga: o platonismo. A idéia de uma natureza humana
conflitantemente dividida entre carne e espírito representou,
para a espiritualidade cristã, o que a cosmologia de
Ptolomeu significou antes das teorias científicas de
Copérnico e Galileu: quem se dedica às coisas do mundo,
à pólis, arrisca-se a perdição. A santidade era concebida
como negação da matéria, mortificação (morte) da carne,
renúncia da vontade própria, fruição de êxtase espiritual.
Nessa ótica atomística de se compreender a relação da
pessoa com a divindade, havia acentuada dose de solipsismo,
o cuidado do aprimoramento espiritual do eu sobrepunha-se
à exigência evangélica de amor aos outros.
Como
nem mesmo a discussão em torno do sexo dos anjos deixa
de ter seus reflexos políticos, tal concepção pagã da
mística - que conduziu por desvios a espiritualidade
cristã - serviu de matriz às utopias políticas da República
de Platão, das Cidades de Santo Agostinho, das propostas
de Thomas Morus e de Tomás de Campanella. Na Igreja,
o equívoco alcança o seu ponto alto na Idade Média,
confinado entre as fronteiras políticas do poder eclesiástico
e na idéia de que o Reino de Deus se estabelecera neste
mundo.
O
engajamento do místico
É
interessante constatar que os grandes místicos foram
simultaneamente pessoas mergulhadas na efervescência
política de sua época: Francisco de Assis questionou
o capitalismo nascente (como bem o demonstra a magistral
obra de Leonardo Boff, São Francisco Ternura e Vigor);
Tomás de Aquino defendeu, em O Regime dos Príncipes,
o direito à insurreição contra a tirania; Catarina de
Sena, analfabeta, interpelou o papado; Teresa de Ávila,
"mulher inquieta, errante, desobediente e contumaz",
como a qualificou Dom Felipe Sega, núncio papal na Espanha.
Em 1578, revolucionou, com São João da Cruz, a espiritualidade
cristã.
Por
mais que as escolas espirituais do Ocidente antigo tenham
a ensinar, bem como as obras dos místicos cristãos,
é no Evangelho que se encontram os fundamentos da mística
cristã. A vida de Jesus não busca a reclusão dos monges
essênios e nem se pauta pela prática penitencial de
João Batista (Mateus 9, 1-15). Ela se engaja na conflitividade
da Palestina de seu tempo. O Filho revela o Pai andando
pelos caminhos; seguido por apóstolos, discípulos e
mulheres; acolhendo pobres, famintos, doentes e pecadores;
desmascarando escribas e fariseus; cercado por multidões;
fazendo-se presença incômoda nas grandes festas em Jerusalém;
perseguido e assassinado na cruz como prisioneiro político.
Dentro
dessa atividade pastoral, com fortes repercussões políticas,
Jesus revela-se místico, ou seja, como alguém que vive
apaixonadamente a intimidade amorosa com o Pai, a quem
ele trata por Abba - termo aramaico que
exprime muita familiaridade, como o nosso "papai"
(Marcos 14, 36). Seu encontro com o Pai não exige o
afastamento da pólis, mas sim abertura de coração à
vontade divina.
A
mística do místico
Fazer
a vontade de Deus é a primeira disposição espiritual
do místico. Essa vontade não se descobre pela correta
moralidade ou pela aceitação racional das verdades de
fé. Antes de ser uma conquista ética, a santidade é
dom divino. Portanto, nas pegadas de Jesus, o místico
centra sua vida na experiência teologal; sua conduta
e sua crença derivam dessa relação de amor que ele tem
com Deus. Teresa de Ávila dirá isso com outras palavras:
"A
suprema perfeição não consiste, obviamente, em alegrias
interiores, nem em grandes arroubos, visões ou espírito
de profecia, mas sim em adequar nossa vontade à de Deus"
(Fundações , 5, 10).
A
oração é o hábito que nutre a mística. Mesmo Jesus reservava,
entre sua atividade, momentos exclusivos de acolhimento
do Pai em seu espírito. "Permanecia retirado em lugares
desertos e orava" (Lucas 5, 1-6). "Ele foi à
montanha para orar e passou a noite inteira em oração
a Deus" (Lucas 6,12).
Para
aprofundar a fé, a oração é tão importante quanto o
alimento para nutrir o corpo ou o sono para recuperar
energias. No entanto, mesmo dentre o ativismo das grandes
cidades, os cristãos encontram tempo para comer e dormir
- se o mesmo não ocorre com a oração, não é apenas por
culpa deles. No Ocidente, perdemos os vínculos que nos
ligavam às grandes tradições espirituais e somos herdeiros
de um cristianismo racionalista, fundado no aprendizado
de fórmulas ortodoxas, bem como pragmático, voltado
à promoção de obras ou ao desempenho imediato de tarefas.
Fazemos de nosso cristianismo uma resposta mais próxima
de nossa fome de pão do que de nossa fome de beleza.
A dimensão de gratuidade - essencial em qualquer relação
de amor - fica relegada a momentos formais, rituais,
de celebrações, sem dúvida importantes, mas insuficientes
para fazer da disciplina da oração um hábito que permita
penetrar os sucessivos estágios da experiência mística.
Ao
contrário de certas escolas pagãs, a mística cristã
não visa a oferecer uma técnica que leve o crente às
núpcias espirituais com a divindade - embora isso possa
ocorrer como dom misericordioso do Pai. Antes, ela visa
a ensinar-nos a amar - assim como Deus ama - as pessoas
com as quais convivemos, nossos parentes, a comunidade
com a qual estamos comprometidos em nossa pastoral,
o povo a que pertencemos e, especialmente, os pobres,
imagens vivas de Cristo. Ninguém jamais contemplou a
Deus. Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece
em nós e o seu Amor em nós é perfeito (1 João 4, 12).
O
amor de Jesus a seu povo é proporcional à sua fidelidade
ao Pai. Por isso, ele aceita o cálice: não retém para
si a sua vida, porque entende que o Pai a exige por
seu povo (Marcos 1,4-36). É aqui que a experiência mística
encontra seu ponto de contato com a atividade política.
Mística
e política
O
exercício político como acúmulo pessoal de poder - mesmo
na Igreja - é incompatível com a experiência mística.
"Os reis das nações as dominam e os que a tiranizam
são chamados benfeitores. Quanto a vós, não deverá ser
assim; pelo contrário, o maior dentre vós torne-se como
o mais jovem, e o que governa como aquele que serve"
(Lucas 22, 25-26).
A
política que não se baseia democraticamente na participação
popular tende a ser privilégio de um grupo, de uma casta
ou de uma classe. Essa participação popular deve abranger
as três esferas da vida social: politicamente, por mecanismos
que permitam a todos participar das decisões; ideologicamente,
pelo direito de crítica e pelo dever de autocrítica;
economicamente, pelo igual direito de acesso aos bens
necessários à vida.
Fora
disso, ainda que com o título de democracia, o que há
são estruturas, idolatrias de poder, pois se impõem
ao povo como forças onipotentes, oniscientes e onipresentes.
Para o político que usufrui delas, a política é uma
perversa maneira de pretender se comparar a Deus. É
o Olimpo no qual o desejável se torna possível. Daí
por que muitos políticos burgueses, cercados de incontáveis
fortunas e ameaçados pela idade avançada, ainda insistem
em suportar até mesmo revezes e humilhações na atividade
política - ela é, para eles, uma espécie de divinização
do próprio ego. Fora do poder ou da função política,
eles se veriam insuportavelmente reduzidos à própria
identidade, obrigados a sofrer o abismo, que, para o
comum dos mortais, há entre o desejável e o possível.
Por isso, não são raros os casos de políticos que, excluídos
do poder, preferem a morte (Getúlio Vargas).
"...E
o que governa como aquele que serve".
Nessa dimensão evangélica, a política é compatível com
a mística, pois as exigências fundamentais coincidem:
descentralização de si nos outros, fidelidade à vontade
alheia e humildade no compromisso com a verdade. Inúmeros
militantes políticos, sobretudo quando ainda não chegaram
ao poder, vivem essa mística, a ponto de aceitarem,
na tortura, antes morrer do que trair a causa que abraçaram.
As
adversidades de uma prática política oposta à situação
dominante são, por vezes, comparáveis à disciplina ascética
necessária à dilatação mística; as provações físicas,
o anonimato na clandestinidade, a fé no processo histórico
e no povo, a esperança de vitória, o dom de si a cada
momento de risco, etc. Ainda que não há uma consciência
teológica dessa experiência, é inegável que toda prática
de amor - na qual o bem dos outros se coloca acima do
próprio bem - é a realização plena do mistério de Deus
na vida humana, pois "aquele que permanece no amor,
permanece em Deus e Deus permanece nele" (1 João
4, 16).
Para
o cristão, em sua consciência teológica, essa dimensão
mística deve ser apreendida como experiência teologal:
no seu amor aos outros ele vive o amor do Pai. Paulo
VI dizia que "a política é a forma mais perfeita de
caridade". Porque ela diz respeito a todos e a quase
tudo, do preço do pão às disciplinas que se ensinam
nas escolas, do uso pornográfico da mulher na publicidade
ao sistema social de saúde, tudo depende do projeto
político vigente.
Ora, sem repetir erros passados -
como formar partidos confessionais ou crer que, por
ser cristão, alguém é melhor político -, deve-se buscar
a síntese entre a política, como exercício de transformação
libertadora da sociedade, e a mística, como conversão
permanente ao Amor.
Aceitar que a mística nada tem a
ver com a política seria desencarnar Jesus da história
e afirmar que as coisas de Deus não servem para este
mundo que Ele criou. O que de mais íntimo Deus pode
nos dar - a união espiritual com Ele já nesta vida -
estaria reservado àqueles que fazem o movimento contrário
ao de Jesus: saem da conflitividade histórica para "melhor"
viver a sua fé.
Pai
Nosso & Pão Nosso
A
proposta evangélica vai em outra direção: a comunhão
com o Pai manifesta-se na união com o povo livre dos
sinais de morte (Apocalipse 21, 3-40). Na oração que
o Senhor ensina, há uma relação dialética entre o mergulho
na fé e a promoção da justiça: ao Pai Nosso pedimos
o Pão Nosso. E, nos Evangelhos, das bodas de Caná aos
discípulos de Emaús, é na partilha do pão - símbolo
dos bens necessários à vida - que se manifesta a bondade
do Pai. Nesse sentido, não haverá completa justiça enquanto
não se puder viver a liberdade como mística, ou seja,
na dimensão de que uma pessoa é tanto mais livre quanto
mais descentrada de si mesmo e centrada no Outro e nos
outros.
Do mesmo modo, nesse mundo e nessa
cultura de proporções globais, em que o pobre é uma
inumerável coletividade, o amor não pode ser mais pensado
e vivido somente em termos de relação interpessoal:
Ele se torna também uma exigência política, de entrega
da vida ao resgate da fraternidade entre os homens,
de compromisso libertador. Isso não significa racionalizá-lo
a ponto de, a pretexto do coletivo, ignorar o pessoal.
A raiz e o fruto de toda transformação social que se
queira completa serão sempre únicos: o coração humano,
aí onde a divinização da pessoa transborda para a divinização
da história.
Viver
a fé a partir da causa dos pobres
Na
América Latina, vive-se hoje num contexto de opressão/libertação.
Não se pode imaginar aqui uma vivência cristã politicamente
neutra ou capaz de unir religiosamente o que as relações
econômicas injustas contrapõem antagonicamente. Para
nós cristãos latino-americanos, comprometidos com o
projeto do Deus da Vida, a existência da pobreza como
fenômeno coletivo nos exige, em nome da fé, uma tomada
de posição. Tal realidade comprova que o projeto de
justiça e felicidade proposto ao ser humano por Deus,
descrito nas primeiras páginas do Gênesis, foi
rompido pelo pecado. As vítimas dessa ruptura são principalmente
os pobres, destinatários e portadores da Palavra de
Deus. Por isso Jesus se coloca ao lado deles. Não o
faz por serem os pobres mais santos ou melhores do que
os ricos, mas simplesmente porque os pobres são pobres
- e a existência coletiva de pobres não estava prevista
no projeto original de Deus, pelo qual todos deveriam
partilhar os bens da Criação e viver como irmãos.
Ninguém
escolhe ser pobre. Todo pobre é vítima involuntária
de relações injustas. Por isso os pobres são chamados
bem-aventurados, pois só eles nutrem a esperança de
mudar tal situação e de que a justiça de Deus prevaleça.
Assim, a vivência da fé cristã na América Latina supõe
inevitavelmente um posicionamento político. Seja do
lado das forças de opressão, como o fazem aqueles que
condenam a violência política dos oprimidos, sem se
perguntarem pelos mecanismos de violência econômica
do capitalismo; seja do lado das forças de libertação,
como todos nós que comungamos a opção preferencial pelos
pobres.
É
fato que as nossas referencias ideológicas nem sempre
nos permitem reconhecer com clareza a própria posição
em que nos encontramos. Há cristãos que sinceramente
percebem os sintomas - a miséria, as enfermidades, a
morte prematura de milhões - e não chegam a descobrir
as causas de tais problemas sociais. Em geral, tais
pessoas e setores ocupam o lugar social reservado àqueles
que usufruem de privilégios sociais e/ou patrimoniais,
como detentores da propriedade privada de bens simbólicos
ou materiais. Esses elaboram uma teologia que procura
legitimar os mecanismos de dominação através do seqüestro
da linguagem, promovendo-a à esfera da abstração, como
se o discurso religioso pudesse, de alguma forma, deixar
de ser também político.
Essa
arqueologia da linguagem possui exemplo singular na
parábola do Bom Samaritano (Lacas 10, 25-37).
A resposta do doutor da Lei não estava teologicamente
equivocada, mas carecia de incidência política, como
se a linguagem da fé servisse para diluir, ao nível
dos conceitos, realidades contraditórias e conflitivas
ao nível dos fatos e da vida. Jesus prefere um segundo
discurso - situado no aqui-e-agora do homem que descia
de Jerusalém a Jericó - e capaz de decifrar e denunciar
as diversas posturas teológicas/políticas da conjuntura
em que viviam: o sacerdote, o levita e o samaritano.
Ora, fazer teologia a partir das aspirações
libertadoras dos pobres é recuperar a força profética
e sacramental do discurso sobre a fé, ainda que consciente
de que, em última instância, cabe o silêncio de nossa
parte e, de outra, a manifestação inefável do Espírito
de Deus (Romanos 8,26-27).
Teologia
da libertação
A
teologia que hoje se produz na América Latina a partir
dos pobres - conhecida como Teologia da Libertação
- assume conscientemente sua incidência política e suas
mediações ideológicas. Trata-se de um teologia que não
nasce do limbo acadêmico das universidades ou das bibliotecas,
mas sim da luta de milhares de comunidades eclesiais
de base que fertilizam a nossa fé com o sangue de inúmeros
mártires, como Mons. Oscar Romero, de El Salvador, abatidos
pela força da opressão.
Por
isso, nos Documentos de Santa Fé, que
estabeleceram as diretrizes das políticas externas dos
governos Reagan e Bush, em 1980 e 1989, a Teologia
da Libertação é considerada como a ameaça maior aos
interesses norte-americanos no continente. Em
resposta a esta ameaça, surge a Igreja Eletrônica, de
perfil pentecostalista, dispondo de ampla rede de satélites,
emissoras de TV e rádios, revistas e jornais. No lado
católico, a versão da Igreja Eletrônica é o Projeto
Lumem 2000, de re-evangelização do mundo na
próxima década, com um orçamento inicial de 400 milhões
de dólares, oferecidos pela organização católica fundamentalista
da Holanda, Testemunhas do Amor de Deus.
Na
prática da luta por justiça é que os cristãos latino-americanos
entram em contato com forças políticas e ideológicas
aparentemente contrárias ao universo da fé. Não se trata
de um diálogo formal entre Igrejas e partidos ou entre
cristãos e políticos de esquerda Trata-se de uma prática
comum junto ao mesmo povo, contra o imperialismo norte-americano
e o neoliberalismo, e a favor dos mesmos direitos dos
pobres e do futuro socialista. Tal aproximação a partir
da prática tem sido igualmente benéfica a cristãos e
militantes de esquerda. O inimigo, aliás, não faz distinção
entre um e outro, tratando-nos todos como comunistas
ateus, pois nada pior para ele do que ver-se desprovido
de sua legitimidade religiosa, que acoberta seus reais
interesses.
Cristãos
e marxistas
Nem
sempre foi fácil a aproximação entre cristãos e marxistas.
Havia muitos preconceitos e temores de ambos os lados.
Na maioria dos países que ingressaram na esfera socialista,
as Igrejas cristãs tinham sido aliadas das antigas classes
opressoras. Por isso, nos anos 60, alguns setores cristãos
latino-americanos abandonaram a Igreja e a própria condição
de cristãos, na medida em que a luta revolucionária
os levou a descobrir a teoria marxista. Porém a crise
enfrentada pelas concepções dogmáticas marxistas, após
as denúncias dos crimes de Stalin, e as mudanças operadas
na Igreja católica, refletidas nas novas formulações
do Concilio Vaticano II, propiciaram condições para
que outros cristãos se engajassem no processo revolucionário,
em nome mesmo da fé cristã, como os cubanos Frank País
e José Antonio Echeverria e o sacerdote colombiano Camilo
Torres.
Hoje,
na América Latina, cristãos e marxistas atuam juntos
nos mesmos movimentos populares, nos mesmos sindicatos
combativos, nos mesmos partidos revolucionários.
Não
queremos confessionalizar os instrumentos de
luta política, pois a divisão da sociedade não se dá
entre crentes e não-crentes, e sim entre opressores
e oprimidos. Uma série de acontecimentos mudaram o perfil
da América Latina nos últimos 30 anos.
A renovação da Igreja Católica pelo
Concílio Vaticano II, as conferências episcopais de
Medellin (1968) e Puebla (1979), o fracasso das concepções
desenvolvimentistas e da Aliança para o Progresso, a
vitória da Revolução cubana e a nova hegemonia política
do capital internacional, na forma de ditaduras militares,
foram fatores que levaram muitos cristãos a se engajarem
na luta social e, a partir desse compromisso com os
oprimidos, a se depararem com a realidade gritante da
pobreza coletiva. Não foi o marxismo que levou amplos
setores cristãos a descobrirem os pobres. Foram os pobres
que levaram os cristãos a descobrirem a importância
das mediações analíticas. Pois, diante de tanta miséria,
foi preciso perguntar por suas causas estruturais e
pelas condições de sua superação.
Hoje,
as mudanças no Leste europeu obrigam a Teologia da Libertação
a revisar sua concepção de socialismo e a rever os fundamentos
do marxismo. Não se trata apenas de um esforço teórico
para separar o joio do trigo, mas sobretudo de restaurar
a esperança dos pobres e de abrir um novo horizonte
utópico à luta da classe trabalhadora. Ignorar a profundidade
das atuais mudanças é querer tapar o sol com a peneira.
Admitir o fracasso completo do socialismo real é desconhecer
suas conquistas sociais - sobretudo quando consideradas
do ponto de vista do Terceiro Mundo - e aceitar a hegemonia
perene do capitalismo. É preciso detetar as causas dos
desvios crônicos dos regimes socialistas e redefinir
o próprio conceito de socialismo.
A
fé abre-nos ao imperativo da vida, mas não oferece mediações
analíticas e instrumentos políticos necessários à construção
do projeto de fraternidade social. As importantes contribuições
das ciências políticas não podem ser ignoradas pela
reflexão teológica latino-americana, se queremos compreender
os mecanismos capitalistas que excluem milhares de pessoas
dos direitos fundamentais à vida. E a contribuição das
teorias econômicas e sociais à teologia não ameaça a
integridade de nossa fé, pois já não podemos aceitar
que o marxismo, por exemplo, seja uma religião ou que
a fé cristã seja uma mera ideologia.
Não
se trata de assumir um materialismo vulgar ou um mecanicismo
que nega a vida espiritual e ignora o papel da subjetividade
humana nos processos históricos. Nem de ter fé no dogma
de uma metafísica "marxista". Ou de acatar a versão
stalinista contida em manuais maniqueístas, nos quais
o ateísmo prevalece, como postura revolucionária, sobre
os compromissos efetivos com a libertação da classe
trabalhadora.
Imbuídos
de uma vivência teologal e de uma reflexão teológica
fundadas na opção pelos pobres, no compromisso com o
projeto do Reino de Deus, os cristãos assumem mediações
ideológicas sem conflitos, mesmo porque a urgência da
fome torna secundárias certas questões teoréticas. Em
nossas vivências pastorais e políticas, fé e ideologia
relacionam-se mutuamente, mas nem a revelação de Deus
se esgota em qualquer projeto de sociedade, nem a ideologia
pode prescindir da racionalidade própria à autonomia
da esfera politica. Contudo, tal racionalidade jamais
invade e ocupa o espaço inefável da experiência teologal.
É
preciso reconhecer, ainda, que a crítica marxista à
religião tem servido à purificação de nossa fé e de
nossa vivência cristã. O Deus no qual cremos não é o
mesmo deus que o marxismo nega, pois não cremos no deus
do capital, das torturas ditatoriais ou das idolatrias
modernas. Cremos no Deus da vida anunciado por Jesus
aos oprimidos. Deus que exige justiça para todos e quer
libertar também os opressores de sua condição de opressores.
Portanto, fazer teologia hoje na América Latina supõe
uma abertura ecumênica, no sentido etimológico do termo,
que vai além da articulação cristã dos discursos teológicos
ou das práticas pastorais dos católicos e dos evangélicos.
Implica também incorporar o discurso ideológico e a
prática política dos movimentos e dos partidos que assumem
as aspirações libertadoras de nossos povos.
Assim, a teologia na América Latina
liberta-se do limbo das categorias acadêmicas e, de
novo, encarna-se na vida e na luta de inúmeros crentes
e oprimidos que já não podem separar fé e vida, pastoral
e política, salvação e libertação. O terreno concreto
da política, com as suas expressões ideológicas, constitui-se
no novo lugar teológico por excelência, onde se decide
não só a sorte de milhões de seres humanos, mas também
a nossa fidelidade ao Pai no serviço ao povo, em vista
da construção do projeto de Deus na história.
Desse
programa libertador, que se impõe como dever aos cristãos,
participam ateus e homens e mulheres de boa vontade.
Enfim, todo um contingente de pessoas que, por enquanto,
só é capaz de reconhecer a presença viva de Jesus nos
oprimidos que padecem fome, não têm roupa, encontram-se
desabrigados, explorados e marginalizados (Mateus 25,31-46).
É
o pobre, como sacramento de Deus, que em nosso continente
dilata as fronteiras da Igreja e faz da política e da
ideologia versões profanas, porém teologais, do discurso
teológico, quando proferidos desde seus interesses.
E ainda que a fé não seja tão forte a ponto de transportar
montanhas, ao menos fica a certeza de que o amor, refletido
nas práticas libertadoras, nos faz todos participantes
da comunhão entre o Pai, o Filho do Espírito Santo.

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